O encerramento das atividades do Will Bank marca um dos episódios mais relevantes do setor financeiro brasileiro nos últimos anos, especialmente no segmento de bancos digitais. A instituição teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central do Brasil em janeiro de 2026, encerrando de forma definitiva suas operações após meses de deterioração financeira e tentativas frustradas de recuperação. A medida, embora extrema, foi adotada com o objetivo de preservar a estabilidade do sistema financeiro e proteger os interesses dos clientes.
A decisão do regulador não ocorreu de forma repentina. O Will Bank já vinha sendo monitorado de perto pelas autoridades monetárias desde o agravamento da crise de seu controlador, o Banco Master, cuja situação econômico-financeira se mostrou insustentável ainda em 2025. A forte interdependência entre as duas instituições acabou comprometendo a capacidade operacional do banco digital, levando o Banco Central a concluir que não havia alternativas viáveis para sua continuidade.
O que é a liquidação extrajudicial e por que foi aplicada
A liquidação extrajudicial é um instrumento previsto na legislação brasileira para lidar com instituições financeiras que se tornam incapazes de cumprir suas obrigações. Diferentemente de uma recuperação judicial tradicional, esse regime permite uma intervenção direta do Banco Central, que afasta os administradores, interrompe as operações e nomeia um liquidante responsável por organizar o passivo, apurar créditos e conduzir o encerramento ordenado da instituição.
No caso do Will Bank, o Banco Central avaliou que a situação financeira já estava irreversivelmente comprometida. Antes da liquidação, o banco chegou a operar sob um regime especial de administração temporária, criado justamente para tentar estabilizar a instituição e buscar soluções como venda de ativos ou transferência da operação para outro grupo financeiro. No entanto, essas alternativas não avançaram, o que tornou inevitável o encerramento definitivo.
Quem era o Will Bank e como atuava no mercado
O Will Bank se consolidou como um banco digital focado principalmente em consumidores de renda média e baixa, oferecendo serviços como conta digital, cartão de crédito, operações de pagamento, crédito pessoal e outros produtos financeiros por meio de uma plataforma totalmente digital. Ao longo de sua expansão, a instituição acumulou milhões de clientes em todo o país e ganhou relevância no ecossistema das fintechs brasileiras.
A aquisição do controle pelo Banco Master, em 2024, foi vista inicialmente como uma estratégia de fortalecimento do negócio. No entanto, os problemas financeiros do controlador acabaram se refletindo diretamente na saúde do Will Bank. A dependência operacional e financeira entre as duas instituições ampliou os riscos e limitou a capacidade de reação do banco digital quando a crise se intensificou.
O que muda para os clientes com o encerramento
Com a decretação da liquidação extrajudicial, todas as operações do Will Bank foram imediatamente suspensas. Contas deixaram de funcionar, transferências foram bloqueadas, chaves Pix desativadas e cartões cancelados. Embora o aplicativo possa continuar acessível para consultas, os clientes não conseguem movimentar recursos ou realizar novas operações financeiras.
Na prática, os correntistas deixam de ser clientes ativos e passam à condição de credores da instituição em liquidação. Os valores mantidos em conta ou aplicados em produtos financeiros passam a integrar o processo de apuração conduzido pelo liquidante nomeado pelo Banco Central.
O papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)
Para reduzir os prejuízos dos clientes, o Fundo Garantidor de Créditos foi acionado. O FGC é o mecanismo de proteção que assegura a devolução de valores depositados em instituições financeiras em caso de quebra, respeitando os limites estabelecidos em regulamento.
Cada pessoa física ou jurídica tem direito a receber até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, considerando o conjunto de produtos cobertos. Esse valor inclui saldos em conta corrente, conta de pagamento e determinados investimentos elegíveis. O pagamento não é automático: os clientes precisam se cadastrar nos canais oficiais do fundo e indicar uma conta em outra instituição para receber o ressarcimento.
Clientes que possuíam valores acima do limite garantido ou que já tenham atingido o teto do FGC em instituições do mesmo grupo podem não ser integralmente ressarcidos. Nesses casos, o excedente entra na fila de credores e depende do resultado da liquidação para eventual pagamento parcial.
E as dívidas dos clientes?
Um ponto que gera dúvidas é o tratamento das dívidas. O encerramento do banco não elimina automaticamente obrigações como empréstimos, financiamentos ou faturas de cartão de crédito. Esses contratos continuam válidos e passam a ser administrados pelo liquidante ou por empresas contratadas para realizar a cobrança.
O não pagamento dessas obrigações pode gerar consequências como negativação em cadastros de inadimplentes, exatamente como ocorreria se o banco estivesse em funcionamento. Por isso, é fundamental que os clientes acompanhem as comunicações oficiais e busquem orientação sobre como proceder em relação a débitos pendentes.
Impactos para o sistema financeiro e para o setor de fintechs
A liquidação do Will Bank ocorre em um contexto mais amplo de debate sobre a sustentabilidade dos modelos de negócio de bancos digitais no Brasil. Embora o sistema financeiro nacional seja considerado sólido e bem regulado, o episódio reforça a importância de governança, gestão de riscos e transparência, especialmente em instituições que crescem rapidamente.
Do ponto de vista sistêmico, o Banco Central busca demonstrar que possui instrumentos eficazes para intervir quando necessário, evitando que problemas isolados se transformem em crises generalizadas. Ainda assim, o caso levanta questionamentos sobre a confiança dos consumidores, principalmente aqueles que utilizam bancos digitais como sua principal ou única relação com o sistema financeiro.
Efeitos sociais e trabalhistas
Além dos impactos para clientes e investidores, o encerramento do Will Bank também afeta diretamente seus funcionários. O fim abrupto das operações gera incertezas quanto a demissões, rescisões contratuais e pagamento de direitos trabalhistas. Entidades representativas acompanham o processo para garantir que os trabalhadores tenham seus direitos respeitados no âmbito da liquidação.
